domingo, 27 de março de 2016

Ano bom

Estirada sobre o sofá, abraçava a convicção que de que o ano recomeçara, embora o calendário mostrasse os meses decorridos. 
A agenda e os novos projetos a alentavam: conseguira, enfim, dar fôlego à própria vida.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

Parem de compartilhar!

Minha última postagem no Facebook foi em 20 de novembro de 2014. Uma música do Tupac para celebrar o Dia da Consciência Negra (ouça aqui). De lá para cá, passei um mês distante, voltei e continuo naquela rede social por razões (bem) mais profissionais do que pessoais. Não, não vou fazer libelo anti-Facebook. Estou no Twitter, mas, também por razões profissionais, vivo mais em perfis alheios do que na minha própria conta. No Instagram, são menos de 10 fotos, e bem mais seguidores do que seguidos. Critérios internos - nem sempre objetivos e confessáveis - guiam meu clique em "seguir". 

O que me incomoda, de fato, é a transformação da própria vida em um produto de consumo. O relacionamento que começa e, logo depois, se vira tema principal de fotos e textos. A rotina diária glamourizada. Os plantões de fim de semana que viram "motivo" de comemoração para disfarçar a frustração em não poder estar com as pessoas amadas. Aliás, as pessoas amadas que também se transformam em um produto de a ser ostentado: os amigos fiéis, o "parças" inseparáveis, as aventuras insuperáveis...

Tem gente ganhando curtidas e dinheiro expondo o próprio relacionamento. Outros, a batalha para emagrecer, a luta contra uma doença. Sim, tenho dietas, doenças e relacionamentos. Sim, não sou exemplo a ser seguido. Mas minha presença (ou presença-ausente) nas redes sociais pauta-se pela pergunta: vale transformar a própria existência em uma novela? E o depois? E quando o relacionamento perfeito acabar? E se o emprego naufragar? Se os quilos voltarem? Enfim, vale mesmo conviver com perguntas sobre o depois? Para mim, não. Intimidade para os íntimos. Por favor, parem de compartilhar. 

quinta-feira, 18 de junho de 2015

quarta-feira, 22 de abril de 2015

Fábrica de produzir infelizes*

Mas para fazer jornalismo é preciso contar com profissionais competentes. A recente onda de demissões atingiu muitos dos mais experientes. Alguns saíram a pedido, insatisfeitos com a falta de perspectiva de valorização na empresa. Os baixos salários da maioria e a falta de um plano de carreira são reclamações recorrentes. Entre os jornalistas começa a se difundir o sentimento de que esta é uma profissão para quem tem até 30 anos e não tem filhos, e que as redações são uma fábrica de produzir infelizes: gente mal paga e que não se reconhece no que faz. Considerando que o jornalismo é uma atividade à qual as pessoas se dedicam por prazer, não é difícil calcular o tamanho da frustração.

Reinventar-se e tornar-se empreendedor de si mesmo é o mantra desse mercado que desmantela qualquer perspectiva de estabilidade e joga purpurina sobre a dramática realidade da precarização, da qual as propostas de terceirização, atualmente em discussão e cinicamente vendidas como um benefício aos assalariados, são o exemplo mais acabado.

As mudanças no mundo do trabalho têm levado contingentes inteiros de trabalhadores qualificados a se degradar – perdão, a se “reinventar” –, obrigando-os a abandonar habilidades duramente aprendidas para se transformarem em pau para toda obra. Simplesmente porque é preciso sobreviver, e porque não se vislumbra saída imediata.

A crise que estamos enfrentando, e que não é de hoje, nos impõe uma resposta à altura, e esta resposta não será individual, como sugere a ideia de “reinventar-se”, que ignora a perspectiva coletiva, sem a qual nada muda. Para os jornalistas, em particular, essa resposta não pode dispensar a luta pela recuperação da dignidade e pela exigência do respeito aos princípios que norteiam a profissão.


* Trecho do artigo O suicídio do jornalismo, de Sylvia Debossan Moretzsohn, publicado no Observatório da Imprensa. 

sábado, 31 de janeiro de 2015

Depois daquela noite

Qualquer coisa que escapasse dos seus lábios, depois daquela noite, soaria piegas e apressado. Havia aprendido profundas e dolorosas lições, nos últimos meses, e ansiava – num misto de medo e de expectativa – encontrar a situação adequada para colocá-las à prova. Naquela noite, afinal, depois de adiamentos e de indecisões, se encontraram. Lábios e mãos, também. Tocá-lo era uma necessidade vital. Sobretudo, sentir a força mística da sua pele negra. O afeto do seu abraço. Parecia urgente – ela ainda não sabia bem por qual motivo – que seus caminhos se encontrassem. Confusa, prendeu as palavras aos próprios lábios. Sorveu o momento para gravá-lo em um sorriso frouxo que a acompanharia ao longo do dia seguinte. 


O cão perverso

"O maior dos castigos, para o qual só há pior no inferno, é a gente recordar. Lembrança que vem de repente e ataca como uma pontada debaixo das costelas, ali onde se diz que fica o coração. Alguém pode ter tudo, mocidade, dinheiro no bolso, um bom cavalo debaixo das pernas, o mundo todo ao seu dispor. Mas não pode usufruir nada disso, por quê? Porque tem as lembranças perturbando. O passado te persegue, como um cão perverso nos teus calcanhares. Não há dia claro, nem céu azul, nem esperança de futuro, que resista ao assalto das lembranças."


Memorial de Maria Moura, Rachel de Queiroz, pag. 188.