domingo, 26 de fevereiro de 2012

Juventude precoce

Por Diene Batista

Cleisiane da Silva teve de abandonar os es­tu­dos aos 14 anos, quando ficou grávida. Hoje, aos 16, concilia o so­nho de voltar à escola com o tra­balho de operadora de caixa em um supermercado de Goiânia. Quando tinha essa idade, Lucas Alves havia terminado o Ensino Médio e depois de conseguir uma bolsa do Programa Universidade Para Todos (ProUni) se mudou para a capi­tal para cursar Engenharia de Produção. Aos 19, se prepara para a reta final da graduação e já planeja a continuidade dos estudos.

Os diferentes caminhos que os dois seguiram ilustram a realidade vivida pelos jovens brasileiros. Eles estão cada vez mais precoces, tanto pelo início da vida sexual quanto pelo ingresso em cursos de graduação, pós-graduação e pelo empreendedorismo. Segundo o estudo Ju­ventu­de e Políticas Sociais no Brasil, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), publicado no último ano, até 2010, os jovens representavam 26% da população brasileira. Ao todo, são 51 milhões de pessoas com idade entre 15 e 29 anos. Mas a expectativa é que em 2050 o percentual de brasileiros nessa faixa etária caia para 20%.

Quando essa data chegar, a situação será bem diferente da vivida nos anos 1970 e 1980, quando uma “onda jovem” atingiu o Brasil. O crescimento acentuado nessas décadas, aliado ao aumento da fecundidade entre adolescentes e a mortalidade entre homens jovens, colocaram a juventude na pauta de debates sobre políticas públicas.

Para o sociólogo Flávio Sofiati, os jovens vivem um processo contraditório nas etapas de passagem da adolescência para a juventude e dessa fase para a vida adulta. “Ao mesmo tempo em que a vida sexual tem chegado mais cedo, gerando diversas situações como o alto índice de gravidez na adolescência, a permanência dos jovens na casa dos pais tem se prolongado, principalmente em virtude da não autonomia financeira”, analisa.


Mãe aos 14

Cleisiane: “fiquei grávida aos 14 anos de idade, e vi minha rotina mudar bruscamente”

A situação descrita pelo especialista é parecida com a vivida por Cleisiane. Quando ficou grávida, aos 14 anos, ela viu a rotina de adolescente ser modificada bruscamente. “Os sentimentos se confundiram. Primeiro o susto e a raiva por “ter aprontado sem pensar nas consequências”, lembra. “De­pois, a alegria e o peso da responsabilidade pela criação do meu filho.”

Nos primeiros meses ela ficou desorientada, mas com o tempo se acostumou com a situação e começou a se apegar ao bebê, principalmente depois que todo mundo aceitou a gravidez. O filho de Cleisiane, Lu­cas Fellipy, já tem um ano e dois meses, e cresce cuidado não apenas pela mãe, mas também pela avó, a dona de casa E­divânia Maria da Silva, e pelo avô, o pedreiro Leonildo Roque.

A jovem, que já havia fugido de casa uma vez antes de ficar grávida, diz ter mudado completamente depois que a criança nasceu. “Era 'desmiolada' fazia as coisas sem pensar nas consequências, ia 'pela cabeça dos outros'. Agora, encaro tudo com mais maturidade e também sigo os conselhos da minha mãe”, avalia. Até para fazer amizades, Cleisiane está mais cautelosa. “Antes da gravidez, acreditava em todo mundo que dizia ser meu amigo. Já convidava para vir a minha casa, mas hoje em dia procuro observar se aquela pessoa realmente é minha amiga”, explica.

Mesmo com o filho e com as responsabilidades que vieram junto com a maternidade, Cleisiane ainda se sente jovem, porém, mais madura. “O jovem deve curtir a vida, mas com limite, não deixando se influenciar apenas pelos amigos e buscando conquistar a confiança dos pais para, no futuro, ter liberdade.”

A moça conta ainda que por causa do bebê deixou de ir a alguns lugares. “Não tenho a privacidade de antes. Tem hora que quero sair, mas não é todo lugar que criança pode ir.” O trabalho como caixa de um supermercado contribuiu com esse amadurecimento. O cuidado exigido pela função - que lida o tempo todo com dinheiro e atendimento ao público - além do convívio em um ambiente diferente do de sua casa, com hierarquias delimitadas, ajudou a jovem a ter mais responsabilidade.

Em 2012, Cleisiane, que abandonou a escola na 7ª série, pretende voltar a estudar na Educação de Jovens e Adultos (EJA). Assim como ela, 16,6% dos jovens entre 15 e 19 anos estão foram da escola, 10,2% também não completaram o ensino fundamental. Mais de 65% dos jovens que estão na faixa etária entre 18 e 24 anos também não estudam.

O índice só é maior entre a­queles que de 25 a 29 anos: 82,5%. Os dados são da Pes­quisa Nacional por Amostra de Domicílios (PNAD)/Ins­tituto Brasileiro de Geografia e Esta­tística (IBGE), realizada em 2007, e foram adotados pelo Ipea no levantamento sobre juventude realizado no ano passado.

Cleisiane planeja fazer faculdade e ingressar na Polícia Militar. “Ao invés de depender, quero ajudar meus pais. Sinto vergonha porque já deveria ter terminado (o ensino médio), mas joguei tudo para trás”, analisa. Com o rendimento da futura profissão, a moça pretende auxiliar toda a família.

“Usaria o dinheiro para comprar um carro, uma casa para a minha mãe e até pagar alguém para fazer os serviços domésticos para ela.” O desejo de se graduar e ter uma profissão, no entanto, parece ir além dos anseios financeiros. “No meu serviço, vi uma cabo da PM e fiquei admirada com a postura e a educação dela. Isso faz a gente querer se espelhar (na Policial)”.

O ensino superior em idade cada vez menor
Há três anos, Lucas Alves (19 anos) se formava no ensino médio com a entrada no ensino superior já garantida. Devido ao alto desempenho apresentado nas aulas, ele não cursou a sétima série do ensino fundamental. “Isso me deixou adiantado um ano e permitiu que eu terminasse o ensino médio com 16 anos”, lembra.

Além do resultado positivo no Enem, Alves também foi aprovado na Universidade Federal de Goiás (Campus Catalão) para o mesma graduação que cursa em Goiânia. “Preferi ficar na capital porque meu irmão também faz faculdade aqui”, explica. A convivência com o irmão, aliás, ajudou Alves a lidar, sem dificuldades, com os colegas mais velhos. “Sempre fui muito próximo do meu irmão e dos meus primos, todos com mais idade, e acabávamos tendo as mesmas amizades. Logo, os amigos mais jovens que eu tinha eram justamente meus colegas de escola”, descreve.

A situação só mudou com o ingresso na faculdade. O jovem diz ter se sentido deslocado por causa da diferença de idade. “Acabava ficando meio ‘por fora’, pois ainda não podia beber, entrar em boates, dirigir e todas essas coisas que só vem com a maioridade.”

Apesar disso, Alves conta que nunca deixou de sair com amigos só para estudar. “Mesmo assim, na maioria das vezes, sempre tiro as melhores notas nas provas.” O bom desempenho, no entanto, não é resultado de uma rotina pesada de estudos. Ele costuma ir para a faculdade, navegar na internet, jogar videogame e ficar com os amigos.

Segundo Alves, seus estudos não seguem um horário fixo todos os dias. “Gosto de estudar pouco antes da prova e só”, explica. Para ele, os pais devem incentivar os filhos a concluir o ensino básico. O ensino superior, no entanto, demandaria uma maturidade maior do estudante. “Ele precisa saber o que quer para o futuro. Hoje, não vejo a faculdade como tão importante. Conheço pessoas que entraram no curso junto comigo, abandonaram e hoje são bem sucedidos”, compara.

Alves, porém, pretende continuar estudando depois de terminar a graduação, e apesar de não ter traçado nenhum plano, já pesquisou algumas áreas para fazer especialização ou mestrado. “Vou esperar um pouco para ver o que vai acontecer mais adiante e aí sim fazer planos, mas tenho pretensão de ser mestre e doutor o mais jovem possível”, planeja.

A juventude, para ele, é uma fase muito importante da vida, momento em que o caráter e os valores do indivíduo são definidos. “É realmente o período que você se descobre como cidadão”, avalia. O apoio da família nessa etapa foi fundamental para que Alves conseguisse ingressar na faculdade. “Sempre gostei de aprender e isso foi um hábito passado pelos meus pais. Eles me apoiaram e foram muito claros em dizer que eles aceitariam minha escolha, qualquer que fosse.”

Ele explica que a compreensão dos pais - que nunca pressionaram para fazer faculdade ou escolher determinado curso - deu força para ele prosseguir. “Se o filho não tiver um exemplo para seguir o caminho correto, o risco de se envolver com coisas erradas é grande”, acredita.

Empresário aos 24

Renato: “Para mim, ser jovem é estar aberto ao novo, enxergar longe e antecipar os próximos passos."

Uma audiência superior a 100 mil pessoas. Não. O empresário Renato Lemos (24 anos), filho de um juiz de Direito e de uma advogada, não apresenta nenhum programa na TV goiana. Ele atua na área de tecnologia e digital e é fundador e CEO da TV Beauty, uma rede de mídia digital indoor em salões de beleza. “Costumo dizer que o meu negócio é a volta do cinema mudo. Se analisarmos o rádio e a televisão observará que no rádio utilizamos o áudio, na TV o vídeo e áudio, e na TV Beauty so­mente vídeo, sem a necessidade de áudio”, comenta Lemos.

Os monitores de 18 a 46 polegadas são instalados nos salões de beleza e transmitem imagens, vídeos e textos para uma audiência segmentada e cativa, como define Renato Mensalmente, pelo menos 100 mil pessoas entram em contato com o conteúdo produzido e distribuídos em mais de 100 telas. Ele diz que a ideia lhe rendeu bons frutos, e a encara como seu primeiro grande negócio como empreendedor. “O investimento raiz foi meu, mas hoje já existem investidores”, conta.

Ser um jovem empresário, no entanto, não é uma tarefa fácil. “Sobra entusiasmo, mas falta quase todo o restante, é preciso saber empreender desde criança”. Então, vale até usar os conhecimentos repassados pela mãe durante a infância. Ela, principalmente, fez questão de ensiná-lo alguns raciocínios primordiais ainda na fase infantil que ele usa até hoje.

Na infância, sua mãe o ensinou, por exemplo, a coordenar os brinquedos de maneira lógica e racional para saber quanto custava cada um. Foi com essa visão de organizar o próprio universo primeiro que Lemos cresceu e se tornou um jovem empreendedor. “Para mim, ser jovem é estar aberto ao novo, enxergar longe e antecipar os próximos passos”, pondera.

A rotina de trabalho do rapaz é puxada e impõe um ritmo de vida totalmente diferente do vivenciado pela maioria dos amigos. Com isso, muitas vezes, negócios e vida pessoal acabam se misturando. “Meu entretenimento favorito é a internet, que também é ferramenta essencial em meus negócios”, compara.

Ele ressaltando ainda a con­vergência entre TV Beauty e as redes sociais da web. “Queremos criar um relacionamento com os telespectadores e para isso utilizamos o Twitter, Facebook e Youtube. Fazemos promoções e também disponibilizamos conteúdo gratuito para nos­sos seguidores”, explica Renato.

Publicado na editoria Comunidades, da Tribuna do Planalto

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2012

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Desconstrução

À medida que crescemos, dogmas são introjetados em nossa mente, em especial pela família. A religião "certa", os hábitos e costumes "mais adequados". Crescer parece ter a obrigação de derrubar uma a uma as convicções certeiras carregadas ao longo de anos. Dói, porque não há uma receita. Dói, porque caminhos próprios, sem a marca do "certo" ou "errado", começam a ser trilhados. É difícil, porque não haverá um mestre-guia classificando cada conquista, cada novo amigo, colega trabalho, novo trabalho ou novo amor como "bom", "ruim" ou "adequado". Até porque, esse "carimbinho" já não se adequa mais àquela vida. É a avaliação de alguém que não conhece suas angústias, que não sentiu suas dores, que não abortou seus amores, que não ultrapassou seus medos. É difícil, mas é saudável, bom, necessário.

Lea - Toto



E aí você esbarra em histórias que ressignificam tudo.
"Lea - do you still want me to want you"