sábado, 14 de abril de 2012

Poeminha sem nome





 

Eu era mais feliz com o Spandau Ballet.
Sim: sozinha, eu e meus pensamentos, eu e minhas manias.
Eu e meus medos misturados aos sonhos.
Eu e meus desejos tortos.
Eu e meu único desejo de ser feliz.
Desculpe! Você me decepcionou.
Ainda prefiro os meus sonhos, meus pensamentos e minhas vontades.
Eu ainda me prefiro...
Prefiro o amor de fantasia à decepção real,
A infelicidade,
A você...
Mas não se preocupe, seja feliz!

Escrito em 29/05/2010 às 23h29


quarta-feira, 11 de abril de 2012

Meu tempo é outro



Procurei tua foto nas pastas perdidas.
Olhei teu perfil em uma esquina qualquer da internet.
Fiz um poema.
Meu coração, uma prece.
Meus sentimentos, perdidos.
Arrependimento?
Meu tempo é outro. E não é o teu.
Então, não pode ser o nosso.
Quero não dormir. Quero te encontrar.
Quero reler os e-mails perdidos, trocados, respondidos.
Revolvidos.
Amor-carinho escafandrista
Guardado. Escondido. Adiado.
Sufocado, até. Até quando?

domingo, 8 de abril de 2012

O Quinze, três vezes






Não me arrisco a fazer uma resenha ou uma crítica literária. Seria insano e  até prepotente. No entanto, registro minhas impressões sobre O Quinze, de Rachel de Queiroz. Conheci a obra aos 13 anos, em 2004, quando cursava a 7ª série do ensino fundamental. Meses antes lera Memorial de Maria Moura e confesso que as aventuras da Moura me arrebataram mais do que a história de Conceição.

Em 2011, ao cursar a disciplina Jornalismo Literário, redescobri, o livro. A identificação com Conceição, dessa vez, foi imediata. Alguns trechos pareciam descrever sensações por mim vividas e da leitura e de um episódio do cotidiano surgiu esse post, aparentemente sem ligação com obra. O meu texto é “inspirado” (licença poética na minha conta, por favor) nesse trecho d’O Quinze:

“Deitada na cama, com a luz apagada, Conceição recordava Vicente e sua visita. A verdade é que ela era sempre uma tola muito romântica para lhe emprestar essa auréola de herói de novela! Metido com cabras... Não se dava ao respeito... E, ainda por cima, não se importava nem em negar...     Mãe Nácia, porque naturalmente, no tempo dela, agüentou muitas dessas, diz que não vale nada... E a moça comparou dona Inácia àquelas senhoras de alma azul, de que fala Machado de Assis... Foi então que se lembrou que, provavelmente, Vicente nunca lera Machado... Nem nada do que ela lia.     Ele dizia sempre que, de livros, só o da nota do gado. Num relevo mais forte, tão forte quanto nunca o sentira, foi-lhe aparecendo a diferença que havia entre ambos, de gosto, de tendências, de vida. O seu pensamento, que até há pouco se dirigia ao primo como a um fim natural e feliz, esbarrou nessa encruzilhada difícil e não soube ir adiante.     Ele lhe parecia agora um desses recantos da mata, próximo a um riacho, num sombrio misterioso e confortante. Passando num meio-dia quente, ao trote penoso do cavalo, agente para ali, olha a sombra e o verde como se fosse para um cantinho do céu... Mas volvendo depois, numa manhã chuvosa, encontra-se o doce recanto enlameado, escavado de minhocas, os lindos troncos escorregadios e lodosos, os galhos de redor pingando tristemente. Da primeira vez, pensa-se em passar a vida inteira naquela frescura e naquela paz; mas à última, sai-se com o coração pesado, curado de bucolismo por muito tempo, vendo-se na realidade como é agressiva e inconstante a natureza... Ele era bom de ouvir e olhar, como uma bela paisagem, de quem só se exigisse beleza e cor. Mas nas horas de tempestade, de abandono, ou solidão, onde iria buscar o seguro companheiro que entende e ensina, e completa o pensamento incompleto, e discute as ideias e vêm vindo, e compreende e retruca às invenções que a mente vagabunda vai criando?Pensou no esquisito casal que seria o deles, quando à noite, nos serões da fazenda, ela sublinhasse num livro querido um pensamento feliz e quisesse repartir com alguém a impressão recebida. Talvez Vicente levantasse a vista e lhe murmurasse um ‘é’ distraído por detrás do jornal... Mas naturalmente a que distância e com quanta indiferença... Pensou que, mesmo o encanto poderoso que a sadia fortaleza dele exercia nela, não preencheria a tremenda largura que os separava. Já agora, o caso da Zefinha lhe parecia mesquinho e sem importância. Qualquer coisa maior se cavava entre os dois. E, cansada, foi fechando os olhos e confundindo as ideias que aumentavam como sombras de pesadelo, e dormiu, num sono fatigado e triste, sob uma estranha impressão de estar sozinha no mundo.” (páginas 84-86)


Nos primeiros dias de janeiro deste ano, dias que antecedem meu aniversário, reli O Quinze. (Re)leitura estética, técnica. Uma outra visão. Afinal, "welcome to your life", frase de abertura da música Everybody wants to rule the world, do Tears For Fears, tocava constantemente em minha cabeça... Havia acabado de me graduar e, sem falsa modéstia, senti que (re)começava minha vida, definia meus caminhos, depois de defender minha monografia.

Enfim, mais segura, mais madura,  fiz a terceira leitura do livro. E se existiam dúvidas, elas se foram. Morri/morro de amores por Conceição! Tenho uma identificação pessoal (quase igual, mas em uma área diferente, a que tenho em relação ao Atlético Goianense...). Em muitos pontos sou Conceição:

“Acostumada a pensar por si, a viver isolada, criara para seu uso ideias e preconceitos próprios, às vezes largos, às vezes ousados, e que pecavam principalmente pela excessiva marca da casa.” -(página 14)

E é Conceição quem me faz re-redigir esse post, que mofava em uma pasta na área de trabalho do meu computador. Já está  grande. Conto com a sua paciência, leitor.


Personagens e narração

O grande trunfo de Rachel de Queiroz na construção de seus personagens em O Quinze é a narração dos acontecimentos e a descrição não apenas do estado físico, mas, principalmente, do “estado de espírito” de seus personagens.

Ela envereda pelas trilhas do psicológico e, por meio de adjetivos, descreve o físico degradado pela seca. Mãos, gestos, suspiros - qualquer coisa que remeta ao corpo do personagem - serve de pretexto para a descrição minuciosa. Verbos ganham novos sentidos e a leitura torna-se mais deleitosa. Como no trecho a seguir, extraído da página 54 (grifo da blogueira)


“Parou. Num quintalejo, um homem tirava o leite a uma vaquinha magra. Chico Bento estendeu o olhar faminto para a lata onde o leite subia, branco e fofo como um capucho... E a mão servil, acostumada à sujeição no trabalho, estendeu-se maquinal mente num pedido... Mas a língua ainda orgulhosa endureceu na boca e não articulou a palavra humilhante. A vergonha da atitude nova o cobriu todo; o gesto esboçado o retraiu, passadas nervosas o afastaram. Sentiu a cara ardendo e engasgo angustioso na garganta. Mas dentro da sua turbação lhe zunia ainda aos ouvidos: ‘Mãe, dá tumê...’ E o homenzinho ficou, espichando os peitos secos de sua vaca, sem ter a menor ideia daquela miséria que passara tão perto, e fugira, quase correndo...”


No capítulo 16 temos o ápice da transformação do cabra Chico Bento. Ele, acostumado apenas ao trabalho, relutou, mesmo vendo a família assolada pela fome, a pedir comida. Ao chegar no Campo de Concentração, sutilmente, Rachel de Queiroz mostra ao leitor a mudança que se operara no vaqueiro (grifo da blogueira):


“E saiu depressa, segurando as pregas da sua saia de lã azul, em direção ao local de distribuição; atrás dela Chico Bento arrastava os pés, curvado, trêmulo, com a lata na mão estendida, habituado já ao gesto, esperando a esmola.” (página 97)

 
Outro trecho resume os resultados que o sofrimento da seca geraram em Chico Bento (grifo da blogueira):


“E o almoço, ao meio-dia, onde, junto ao pirão, um naco de carne cheiroso emergia, mal o soergueu e animou. Já era tão antiga, tão bem instalada a sua fome, para fugir assim, diante do primeiro prato de feijão, da primeira lasca de carne!...” (página 106)




Deveria redigir algo interessante. Uma “sacada daquelas” para encerrar “com chave de ouro” (e sem clichês) esse post. Mas acredito que O Quinze, suas influências (sobre mim, sobre a literatura) permanecem. Serão repensadas e resignificadas. Para quem não leu, #ficaadica ;) Prova disso é que pesquisando fotos para ilustrar esse texto encontrei  escritos que explicam o que é “campo de concentração”, local onde os retirantes ficavam. Local onde uma conversa mudou os rumos dos sentimentos de Conceição...


Conceição sente-se realizada ao criar Duquinha, o afilhado que lhe doaram Chico Bento e Cordulina. É uma realização íntima, preenchendo o vazio da decepção amorosa.

sábado, 7 de abril de 2012

Une

Quer (s)ler o seu futuro. Mergulhar no seu passado. Por enquanto, entro na complexidade do seu mundo. Redescubro o meu. Vejo que meus problemas, minhas neuras, meus defeitos estão bem acompanhados. Às vezes me envergonho. São tão pequenos diante das suas angústias e inquietações. É tudo isso que nos une.

Aí você transforma a dor em palavras. Apenas.

Daqui a pouco será domingo e os livros estão bagunçados. A cama também. Há ainda algo a ser feito, refeito. Uma convicção - mais negação do que convicção - a ser reeditada. Esmagada contra o peito e absorvida em meio ao silêncio e à perplexidade. Em meio às sensações que não quero sentir. Redescobrir. Reviver.