sábado, 13 de dezembro de 2014

A viagem




Enquanto o avião pousava, ocorreu-lhe a ideia de ficar naquela cidade, que não era a sua. Vagar pelas ruas. Hospedar-se em um hotel barato. E, novamente, vagar pelas ruas, com a roupa do corpo e a mochila nas costas. Gastar a minguada poupança até o último centavo. Não mandar notícias aos parentes que, em certa altura, já o daria como morto. Ou desaparecido para todo sempre. Amém.

Anos mais tarde, apareceria. Barbudo, roto, cabisbaixo e arrependido. Mas sem perder o ar de mártir que o havia caracterizado durante toda vida. Fora assim quando seu pai o abandonara, aos três anos, junto com uma mãe pouco instruída e uma irmã quatro anos mais velha, que aprendeu cedo a arte de transformar-se no centro das atenções.

Ele não. Sempre fora o calado. O torto. O errado. O que destoava daquele clã pouco afeito aos carinhos enquanto ele era todo feito de amor. Mas um amor reprimido. Guardado no mais fundo do peito, mas sempre entregue - na sua forma mais pura e de mão beijada - à mulher errada.

Às vezes aos homens errados, que ele sempre costumava encontrar em cantos sujos da internet e estender o contato aos cantos sujos da cidade. Aquilo, porém, não era amor. Ao menos nunca havia evoluído para essa dolorosa forma de embalar os próprios sentimentos.

Depois, se sentia sujo e se lavava na alva água da poesia e da literatura. Era culto, apesar de tudo. Seus textos, mesmo que pouco lidos, causavam encanto aos olhos que caíam sobre eles. Sobretudo pela verdade que traziam. Se não era verdade, ao menos empatia.

Cultivara aquela empatia desde a mais tenra idade. Como quando, aos sete anos, viu o bêbado na rua e quis lhe emprestar um blusa. O homem caído, com um colchão às costas, trazia o torso nu. Os braços exibiam tatuagens mal feitas e o que restara de músculos em um corpo castigado pelo álcool e outras drogas que ele sequer supunha existir.

Poderia ser pai, afinal. Ele, que há muito estava perdido. E que já supunha morto. Ou talvez tenha se transformado, paulatinamente, em um daqueles homens que vagam pelas estradas. Sujos, rotos, deformados pelo tempo e pela própria história. Talvez por isso os andarilhos sempre chamavam sua atenção.

Mas havia um tipo especial. Não eram aqueles que vagavam pela cidade. Era preciso estar nas rodovias que ligam cidades e até estados.  As vias que acentuam o solidão daqueles homens de barba nunca antes feita, cabelos despenteados e pés cansados.

Ficava imaginando, enquanto o carro deslizava pelo asfalto, como havia sido o dia daquela criatura. Onde dormira ou dormiria. Havia comido? Descansaria no acostamento ou pegaria carona para passar a noite na cidade mais próxima? Eram perguntas que talvez só conseguisse responder se, um dia, se transformasse em um daqueles seres parte homem,  fracasso e liberdade.


Atualização: Neste domingo, 4 de janeiro, o Fantástico apresentou matéria sobre exposição que traz os andarilhos como protagonistas. A reportagem completa pode ser vista aqui.

Soturno

Cancelou a agenda do fim de semana e resolveu ficar em casa. Sentia uma preguiça enorme de colocar a roupa adequada, simular um sorriso, encaixotar a depressão e fingir a felicidade que não sentia. A procura por novos assuntos o paralisava. Ao invés de um interlocutor, preferia o silêncio. Quando falava, sempre entregava as raras palavras a ouvidos errados.  

domingo, 7 de dezembro de 2014

A viagem

O embarque estava marcado. Havia deixado tudo organizado, no trabalho e na vida. Pegou o voo com a secreta vontade de nunca mais voltar. Assim, não teria, ele mesmo, que colocar um ponto final. Precisava de tempo. E queria que ele corresse depressa. Desejava que dias, meses e anos transformassem aquele sentimento em uma lembrança distante e indolor. 


Arte: Goeldi (1895- 1961)

segunda-feira, 18 de agosto de 2014

Reflexões de uma madrugada pós-traumática

Cética. 
A vida  é árida o suficiente para me fazer pedir para descansar o mais breve possível ou para, pelo menos, ter uns nacos de alegria em meio às mentiras, aos enganos, aos erros e as dores que sempre se repetem. 

segunda-feira, 14 de julho de 2014

Nós

Das cinzas, ressurgimos.
Nós, juntos, mais uma vez.
Entre nós, fios enlaçados.
Nada irá nos separar, eu prometo.
Sou sua, relembro, num sussurro.
Cuidaremos do nosso futuro, afinal. 

segunda-feira, 14 de abril de 2014

Rota de fuga



Quero abrigar-me sob a cama mais próxima;
Esconder-me embaixo de lençóis seguros;
Deixar tudo;
Entregar-me, de vez, à loucura;
Lançar-me nos braços do sono;
Optar pelo que me agrada, não pelo que oprime;
Sou retirante em um mundo que me amedronta, sufoca, consome, oprime, mata.